domingo, 12 de fevereiro de 2012

Cada um Tem a Gêmea que Merece

(Jack and Jill, EUA, 2011)
 





Direção: Dennis Dugan 
Roteiro: Adam Sandler, Steve Koren e Ben Zook
Com: Adam Sandler, Katie Holmes, Al Pacino, Elodie Tougne, Rohan Chand, Eugenio Derbez, David Spade, Nick Swardson, Tim Meadows, Allen Covert, Norm MacDonald, Geoff Pierson e Valerie Mahaffey. 
Estreia no Brasil: 10/02/2012

por João Marcos Flores

Mais de um século de história e o Cinema continua criando novos meios de apavorar seus espectadores. Nos anos 20, cineastas como Fritz Lang e F. W. Murnau chocaram o público com suas narrativas delirantes ambientadas em universos deformados. Na década seguinte, foi a vez dos personagens clássicos da literatura de horror, como Drácula, Frankenstein e O Lobisomem, serem levados às telas pela Universal, causando crises de pânico em seus deslumbrados espectadores. E da mesma forma que a Sétima Arte soube aproveitar o contexto da Guerra Fria para amedrontar o mundo com seus filmes-catástrofe sobre guerras espaciais e invasões alienígenas, a era digital trouxe consigo uma série de exemplares do chamado found footage, subgênero iniciado por A Bruxa de Blair em que o medo reside no realismo causado pelos supostos videos caseiros encontrados. Pois me arrisco a dizer que nada ao longo desses mais de cem anos foi capaz de gerar tanto desespero quanto um certo velhinho barbudo que, após quebrar o vidro com uma tacada de golf mal executada e exclamar um abafado “terrific!”, anuncia uma forma de tortura muito mais cruel que aquelas vistas nas aberrações dirigidas por Eli Roth: o fato de que teremos que suportar mais um longa-metr... digo, mais um material fecal em forma de película produzido pela Happy Madison de Adam Sandler.

Escr... ok, me desculpem mais uma vez; expelido por Sandler em colaboração com Steve Koren (Todo Poderoso 1 e 2) e Bem Zook, Cada um Tem a Gêmea que Merece é a sétima colaboração do ator e produtor com Dennis Dugan, um boneco de posto contratado para sentar na cadeira de diretor e se certificar de que todos os cinegrafistas estão apertando o play e o pause de suas câmeras na hora correta. Não é de se admirar, portanto, que sua premissa apresente uma veia autoral tão marcante quanto aquela vista em obras-primas como Eu os Declaro Marido e... Larry, Zohan – O Agente Bom de Corte, Gente Grande e Esposa de Mentirinha: na trama, que não passa de uma mera desculpa para que Sandler possa fazer graça vestido de mulher, o comediante ingressa na escola Eddie Murphy de humor e interpreta Jack e Jill, dois irmãos gêmeos idênticos que se reencontram para as festas de final de ano. O primeiro, um publicitário bem-sucedido casado com Erin (fundo do poço, hein dona Katie Holmes?) e pai de Sofia (Tougne) e Gary (Chand), não vê a hora que sua irmã inconveniente volte para sua cidade enquanto tenta contratar Al Pacino (What in the world happenned to you, Al?) para um comercial do Dunkin’ Donuts, enquanto a segunda, uma escandalosa versão travestida de Sandler, se esforça para arranjar um namorado em um site de relacionamentos e acaba conquistando o coração de... adivinhem? 1, 2, 3... sim, de Al Pacino.

Repetindo as mesmas piadas de sempre envolvendo fezes, tombos e deformidades físicas ao longo de seus intermináveis 91 minutos, Cada um Tem a Gêmea que Merece não poupa nem mesmo sua introdução, que, apresentada na forma de mockumentary (ou de falso documentário), já traz crianças fazendo concurso de pum dentro da banheira e depoimentos de “personagens” gêmeos cuja graça deveria residir em alguma de suas características físicas ou na enorme semelhança entre ambos, sem perceber que, ao escalar o mesmo ator para representar os dois papeis, tais semelhanças não passam de algo óbvio e sem graça nenhuma. E este problema também se aplica, naturalmente, à “dupla” de protagonistas: dedicando diversas cenas para provar como Jack e Jill são parecidos mesmo que se recusem a reconhecer (como aquela ambientada em uma sala de Cinema e que também termina em pum), Sandler está dizendo para o público: “Ei, vejam como eu sou parecido comigo mesmo! Isso não é engraçado?” – algo ainda mais decepcionante por percebermos que o comediante não faz o menor esforço para conferir personalidade à Jill, impondo-lhe a mesma voz anasalada e comportamento infantilóide que estamos tão acostumados a ver em sua versão original masculina.

Demonstrando seu bom gosto habitual ao conceber analogias como aquela em que Jill chega em casa morrendo de vontade de defecar enquanto Erin come um doce feito de chocolate cuja aparência lembra... bem, você sabe o quê, Dugan, o boneco de posto, se mostra perdido até mesmo em funções que fazem parte do be-a-bá da direção cinematográfica: perceba, por exemplo, que durante a sequência paralela em que Jack se veste de Jill para se encontrar com Al Pacino enquanto sua família aproveita as férias em um cruzeiro, o protagonista não apenas vai e volta de um navio que se encontra no meio do Oceano Atlântico como se estivesse mudando de cômodo dentro de sua casa, como o horário da cena avança e retrocede de maneira inexplicável, desafiando até mesmo a diferença de fuso-horário que separa as duas ações paralelas. Da mesma maneira, o trio de roteiristas não se envergonha de adicionar à trama os clichês mais batidos e insuportáveis do gênero, incluindo jantares constrangedores, dancinhas reconciliadoras e até mesmo uma série de mal-entendidos que levarão o protagonista a se arrepender de seus atos e reconhecer o verdadeiro valor da família – oh!

Apesar de tudo isso, porém, quem de fato se importa? Afinal de contas, como culpar os relizadores por produzirem esse lixo em forma de filme se as pessoas continuam pagando para ingeri-lo? Ou ainda, como exigir que uma plateia que sequer demonstra reconhecer os nomes de Brando e Stella Adler reconheça quão frágil, repetitivo e incompetente é o tipo de “humor” feito por Sandler e sua trupe? No final das contas, a verdade é que, como diversos fãs do ator costumam argumentar em sites e fóruns de discussão espalhados pela internet, gente como Sandler, Murphy e Rob Schneider continuam fazendo sua fortuna às nossas custas, quer chiemos ou não. A diferença é que, no caso do protagonista e produtor desse inexplicável Cada um Tem a Gêmea que Merece, nós ao menos temos a chance de ser alertados, e, toda vez que o velho barbudo erra sua tacada e exclama “terrific!”, podemos decidir se estamos a fim, ou não, de uma hora e meia da mais sádica e desumana forma de tortura que o Cinema já produziu em sua história. 

12 de Fevereiro de 2012.

6 comentários:

  1. Primeira crítica que leio (e nisso estou incluindo a minha própria) que não cita as falas finais de Al Pacino, mandando "destruir isso".

    Fora isso, você é mais um pseudointelectual charlatão que não consegue se divertir com nada, que não consegue desligar o cérebro e quer que todos os filmes sejam dignos de Cannes ou Oscar. Faço minhas as palavras de alguém que li em algum fórum da internet:

    "vc não assiste um filme dos produtores de Gente Grande para avaliar roteiro, fotografia, trilha, direção e elenco. sou uma grande fã de Adam Sandler, nunca me decepciono com um filme dele que não cumpra o que promete: fazer rir. eu ri nesse filme do começo ao fim, tem partes ridículas, bobas, mas que fazem o cinema todo rir, um filme sem apelo sexual, mais família, bem seção da tarde.."

    ISSO SIM É CRÍTICA!

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  2. Concordo com todos os pontos da sua crítica. Dos últimos filmes do Sandler o único que conseguiu me fazer rir foi Esposa de Mentirinha (isso na primeira vez que assisti pois tentei assistir uma segunda vez e desliguei o dvd na metade). Eles continuam fazendo suas fortunas por que a cada novo filme todos nós vamos aos cinemas na esperança de que algo tenha mudado, acreditando que eles já compreenderam o quão ridícula é esta "fórmula do humor" que domina todos os seus ultimos filmes. E sempre nos decepcionamos e saimos com a sensação de "da próxima eu não me engano!". A mesma história, as mesmas piadas... até quando? Não sou uma entendida em cinema, mas consigo perceber claramente o tipo de filme que não dá mais pra aceitar. Fico na esperança de ver o humor de Sandler e seus colegas amadurecer.

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  3. Mary, querida. Que legal receber um comentário seu. :)

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  4. Parabéns pela ótima crítica e, principalmente, pelo ótimo visual do seu BLOG.

    A sidebar foi uma ideia de gênio ;)
    Boa sorte na nova fase.

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  5. Posso até conferir... Afinal, uma pessoa bêbada consegue aguentar Adam Sandler ;)

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